Discovery gera salto de 60% para 83% na visualização da página de imóveis
O briefing dizia "melhora a interface". O problema era de identidade.
Fui contratada para melhorar a experiência do Bel Radar v0, uma ferramenta de precificação baseada em
dados reais de transações imobiliárias. Na superfície, parecia um projeto de interface: reorganizar telas, ajustar fluxos, deixar mais bonito.
Mas eu não redesenho o que não entendo. E quando abri o produto, ficou claro que a gente tinha um problema muito maior do que layout: ninguém ali dentro sabia o que aquele produto realmente era.

F1: Página do imóvel V0
F2: Página do imóvel após ações de UX|UI
Três áreas, três produtos diferentes na cabeça
Marketing via uma coisa. Produto, outra. Tecnologia tinha sua própria leitura. O Bel Radar v0 existia sem foco, público indefinido, objetivo pouco claro, fluxo confuso e uma interface carregada, sem hierarquia.
O usuário entrava, explorava, mas não compreendia o valor nem o próximo passo. E o produto não convertia.
Eu podia ter ido direto para o Figma. Mas desenhar tela sem alinhar visão é maquiar problema. Qualquer redesenho seria superficial.
Parei tudo. Primeiro a gente ia descobrir o que estava construindo.
Conduzi uma dinâmica de alinhamento com o time inteiro: "É / Não é / Faz / Não faz". Parece simples. Não é. Porque quando cada pessoa tem uma versão diferente do produto na cabeça, você não constrói produto, você constrói Frankenstein.
O exercício trouxe uma definição que mudou o rumo do projeto:
"O Bel Radar é uma ferramenta de inteligência imobiliária orientada por dados reais, criada para reduzir a assimetria de informação no mercado e apoiar decisões mais conscientes."
Reduzir assimetria de informação. Isso me acendeu. Porque quando informação é desigual, quem perde é sempre o lado mais vulnerável da negociação — o proprietário que não sabe quanto vale seu imóvel, o comprador que negocia no escuro.
Agora a gente tinha um norte. E ele apontava para algo muito maior que uma interface bonita.
Olhei para fora e entendi: a gente tinha ouro nas mãos
Investiguei fluxo, interface e funcionalidades de concorrentes de peso no cenário nacional e internacional
E aí clicou.
Nos Estados Unidos, histórico de transações imobiliárias é público. Qualquer pessoa vê quanto cada imóvel foi vendido e quando. Transparência total.
No Brasil? Nada. Você pesquisa um apartamento e só vê preço de anúncio, que é o que o vendedor quer, não o que o imóvel vale. A simulação te dá um número baseado nessa distorção.
Nosso diferencial não era simular preço. Era dar acesso a dados reais que ninguém mais tinha. Dados de cartório, IPTU, ITBI, informação concreta que nivela o jogo entre quem compra e quem vende.
A gente estava tratando ouro como se fosse mais uma calculadora.
A heurística confirmou o que meu instinto já dizia
Fiz análise heurística sistemática da v0. Os problemas eram gritantes:
Correspondência com o mundo real
Severidade
4
Prevenção de erros
Severidade
3
Estética e hierarquia da informação
Severidade
4
Visibilidade do status do sistema
Severidade
4
Mas eu sei que consertar usabilidade não resolve problema de fundo. A gente ainda não tinha validado se estava entregando o que as pessoas realmente precisavam. Otimizar a usabilidade de algo que talvez nem devesse existir daquela forma? Não faz sentido.
Minha decisão foi direta: entrevista qualitativa + teste de usabilidade juntos. Descobrir a verdade antes de desenhar qualquer pixel.
O momento em que tudo virou
Conversei com proprietários que queriam vender e com investidores, house flippers que compram e revendem imóveis. E foi numa dessas conversas que a ficha caiu de vez.
Eles não queriam uma estimativa. Queriam contexto. Queriam transparência.
A simulação de preço, o grande destaque da v0, não era o mais valioso. O que importava era acesso a dados reais para tomar decisões informadas: contexto de preço no prédio, na rua e na região. Posição, andar, área útil. Histórico de transações.
Durante as entrevistas um investidor disse:
“Mais do que uma estimativa, eu preciso de referência real. Saber por quanto apartamentos do mesmo prédio foram vendidos me dá segurança para definir e negociar o preço.”
Segurança. Referência real. Negociação justa. Isso não é feature, é redução de desigualdade informacional. E era exatamente o que a gente podia entregar.
Priorizar sem ego, com método
Levei os achados para uma reunião com stakeholders, tecnologia e dados. Nada de achismo: avaliamos impacto, esforço, urgência e valor de negócio, item a item. A decisão foi unânime:
Reposicionar o histórico transacional como proposta de valor central do produto.
E isso mudou o escopo. Não era só redesenhar a página do imóvel. Redesenhei todo o fluxo, da entrada do endereço ao complemento do imóvel, e cada interação que conduz o usuário até ali.
Redesenho com propósito, validado com usuário
O novo conceito nasceu de quatro decisões claras:
Histórico de transações em destaque — data, preço, tipo de negociação. O dado mais valioso do produto, finalmente no lugar que merecia. Optei por exigir o endereço completo e o dados e características do imóvel antes de mostrar os dados transacionais porque entrevistas exploratórias indicaram que usuários valorizam exclusividade e precisão das informações. Além disso, a estratégia reduz navegação superficial e aumenta intenção qualificada.
Outros imóveis no prédio e na rua — porque contexto é o que transforma dado solto em inteligência para decisão.
Hierarquia visual que guia o olhar naturalmente — sem ruído, sem sobrecarga. Cada elemento no lugar certo, na ordem certa. O mapa com a localização do imóvel deixou de ser o elemento principal da página dando o lugar para o histórico transacional e dados do imóvel.
Simulação de valor como CTA estratégico — não mais como foco principal, mas como próximo passo lógico para quem já entendeu o contexto.
Defini guias de estilo a partir da identidade visual da Bel. Redesenhei a interface em alta fidelidade. Prototipei. E conduzi nova rodada de testes. A proposta foi validada. Ajustes finos e partimos para implementação.



Telas em alta resolução do Fluxo Versão Mobile
O resultado: de calculadora genérica a inteligência com transparência
A página do imóvel deixou de ser um simulador genérico de preço e virou o que sempre deveria ter sido: uma ferramenta de inteligência imobiliária baseada em transparência de dados.
Visualização da página de imóveis: de 60% para 83%.
O impacto direto.
O que começou como redesign virou um ecossistema
Esse discovery revelou uma oportunidade que ninguém tinha enxergado. A partir dos aprendizados, nasceram três ferramentas que levam transparência para todo o mercado imobiliário:
A Bel deixou de ser "mais uma ferramenta de precificação" e está virando referência em inteligência imobiliária no Brasil.
Bel Radar Pro
Dashboard de dados transacionais com métricas por bairro, rua e endereço pra corretores e imobiliárias
Bel Matrícula
Emissão de matrícula do imóvel usando apenas o endereço, com informações oficiais de cartório
Bel Alerta
Alertas instantâneos de novos imóveis e mudanças de preço dos principais portais
O que esse projeto me ensinou
Discovery evita desperdício.
Sem entender o problema, só se constrói rápido a coisa errada.
Dados só importam quando mudam decisões.
Ter a informação não basta. Contexto é o que transforma dado em poder de decisão — e quando esse poder é distribuído de forma justa, todo mundo ganha.
Proposta de valor vem do usuário, não da sala de reunião.
A simulação era a hipótese da empresa. A transparência dos dados era o valor real para quem usa.
Porque design não existe só para vender. Existe para reduzir desigualdades.
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